Sobrecarregada

IA
 Acordou cedo. Levantou-se, preparou-se a si e à sua filha de 3 anos para a levar à creche pelas 8h. A caminho de casa apanhou o comboio suburbano. Ao sair na estação que pretendia tropeçou no espaço que existe entre a carruagem e a linha. Bateu com a tíbia direita contra o cimento e caiu. Todos sabemos como doeu levar aqueles pontapés na tíbia quando jogávamos futebol nas aulas de educação física. Alguém chamou a ambulância e a sra. B., de 24 anos, foi levada para as urgências do hospital mais perto. Feita a triagem, recebeu o seu acesso venoso periférico, foi escrito um Eletrocardiograma e foi realizado um raio X da tíbia. Esperava tranquilamente na maca pelos resultados. Passam vários profissionais de saúde por si, queixa-se de dores na perna, é-lhe dito que vão tratar da mesma. Ela continua a ver profissionais passarem por si e por tantos outros pacientes e nenhum tem um analgésico para ela. Entretanto saio da casa de banho, e ela pergunta-me "pode retirar o acesso venoso? vou para casa, estou cheia de dores e não recebo nada para aliviá-las. Estou cheia de dores na perna, não sei como vou chegar a casa! Se me dizem que me vão dar alguma coisa por que a demora?". Vou verificar pessoalmente o que ela pode receber para as dores e entrego-lhe no momento. Está chorosa, sente-se impotente, já se levantara para ir. Diz que é mãe solteira e não sabe como vai cuidar agora da filha de 3 anos sem conseguir andar. Adiciona que a mãe é doente oncológica e que não pode colocar-lhe a responsabilidade de cuidar da neta. Diz que não tem a quem acudir. Focamo-nos em tratar do problema atual principal, as dores. Além da medicação é-lhe feito um penso com voltarencreme no local, assim como gelo. Já está mais tranquila, pede desculpa por se ter exaltado. Nem tinha que pedir, por trás das dores estava a preocupação maior de não estar em condições para cuida da filha, por ter a sua mãe doente, por não ter o pai da filha como apoio. Nos sapatos dos outros compreendemos melhor as dores do outro.



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